Meus caros, raros e fieis leitores,
Você conhece ou sabe quem é Rodrigo, Bruno, Rafael Magalhães, Mateus Cunha e Douglas? Não sabe? Pois vou apresentá-los a vocês: são todos da seleção brasileira de futebol. E todos eles devem estar na próxima Copa do Mundo de Futebol, no meio do ano.
Agora, vou lhe mostrar alguns outros nomes pra ver se você os conhece ou se já, pelo menos, ouviu falar neles: Gilmar Mendes, Tóffoli, Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Zanin. Conhece? Claro que conhece. São todos ministros do nosso Supremo Tribunal Federal.
A verdade é que a maioria dos brasileiros sabe o nome de quase todos os ministros do Supremo. Isso não ocorre em nenhum país do mundo. Só no Brasil. E não era pra ser assim. A maioria dos brasileiros não lê jornal, nem se interessa por política. E, mais que isso, muitos entram nas estatísticas dos alfabetizados mas mal sabem interpretar um texto simples ou mesmo escrever sem erros um parágrafo sobre qualquer assunto. São os “analfabetos funcionais”. Pessoas com baixa escolaridade que não sabem fazer nem mesmo algumas contas básicas, como por exemplo, calcular um percentual.
Infelizmente, esse é o Brasil e nós já nos acostumamos com esse cenário e já nem o estranhamos mais. A gente já até se acostumou com a pobreza generalizada e até acha isso normal – o que não deveria.
Mas, voltando aos nossos ministros dos Supremo Tribunal Federal, fica a pergunta: como se explica o fato de que um povo mal informado e com baixa escolaridade é capaz de saber de cor o nome dos nossos digníssimos membros de nossa mais alta Corte? Se perguntarmos o americano médio, ou o francês ou o inglês o nome de dois ou três ministros do Supremo Tribunal deles, é certo que ninguém saberá dizer nem um nome. Mas, o brasileiro sabe. Como explicar isso?
A resposta é simples: nos Estados Unidos, na França ou na Alemanha os ministros do Supremo Tribunal não dão entrevistas, não participam de debates políticos, não emitem opinião em público. Eles se limitam a palpitar nos autos dos processos que lhes são distribuídos. Primam pelo discrição. São acima de tudo discretos. Especialmente em assuntos de política.
Já no Brasil, não. Nossos ministros adoram os holofotes. Vivem dando entrevistas e opinando sobre assuntos políticos. Expõem suas opiniões não só sobre questões políticas mas até mesmo sobre cidadãos envolvidos em processos no Supremo e que, mais cedo ou mais tarde, eles vão ter que julgar. Afora o fato de que, desde 2019, têm assumido o papel explícito de supostos defensores da democracia, o que os leva a abrir inquéritos, processar e julgar cidadãos que, supostamente, afrontaram por palavras ou manifestações públicas a nossa incipiente democracia ou que criticaram nossas “sólidas” instituições. Prendem, soltam, excluem das redes sociais, botam tornozeleira eletrônica, processam e julgam a torto e a direita, mais a direita que a torto.
Eles estão sempre em evidência na mídia. Vez por outra, são sujeitos de escândalos financeiros, ou causam estranheza quando tomam decisões que extrapolam suas atribuições constitucionais, como perdoar dívidas de bilhões de reais de grandes corruptos, ou julgar cidadãos sem foro privilegiado. São useiros e vezeiros em anular leis aprovadas no Congresso Nacional, quando não as alteram a seu bel prazer.
Enfim, nossos ministros do Supremo Tribunal se tornaram verdadeiros “pop-stars”. São reconhecidos em qualquer local onde apareçam. E, na maioria das vezes, são hostilizados pela população. Por isso, já não frequentam restaurantes nem viajam de avião de carreira. Para evitar constrangimentos públicos, só têm viajado em aviões da FAB – que, por isso mesmo, tem sido chamada de FABTur.
Tá explicado porque o brasileiro conhece mais seus ministros do Supremo do que os jogadores da seleção brasileira? Ainda mais que esta nossa seleção não tem empolgado ninguém…
