Poleiro do Chantecler – Vida comunista
Meus caros, raros e fieis leitores,
Muitos de vocês já me perguntaram por que tenho tanta aversão ao comunismo, aqui muito bem representado pelo PT, PSOL e assemelhados. Tenho vários motivos ou explicações para isso. Vou lhes contar a gota d’água:
No final dos anos 70 eu estava concluindo o mestrado em Economia na Kent University, em Canterbury, Inglaterra. Fui pra lá estudar em 1977 e voltei em 1980. Na época eu já era economista concursado do IPEA, em Brasília, e, para ser sincero, eu tinha o coração meio que cor-de-rosa. Em outras palavras, eu tinha alguma simpatia pelas ideias da esquerda – algo que estava muito presente no cotidiano de nossa vida política, durante o governo militar. Por influência de uma colega colombiana – a Nancy – decidi fazer uma “excursão” a Moscou, juntamente com um grupo de estudantes de pós-graduação todos filiados ao Labour Party (Partido Trabalhista) ou ao Workers Party (Partido dos Trabalhadores), ambos ingleses, sendo este último mais radical de esquerda do que o primeiro. A Nancy tinha estado lá no ano anterior e me deu o telefone de contato de um estudante de música da Universidade Estadual de Moscou – chamado Alick. Fomos no dia 27 de dezembro de 1979 e voltamos no dia 20 de fevereiro de 1980. Praticamente dois meses por lá. No fundo, o que eu queria mesmo era conhecer de perto como funcionava o sistema comunista in locco. Bom frisar que o frio estava batendo recordes: cerca de menos 7º graus (negativos). Coisa de louco!
E confesso que voltei de lá hiperdecepcionado com tudo o que vi e presenciei. Após 63 anos de implantação do comunismo na Rússia, o estado ainda era todo policialesco. Polícia pra todo lado vigiando as pessoas. Vou lhes contar dois exemplos:
Primeiro: A Nancy havia me aconselhado a levar muita roupa jeans – blusas principalmente, calças e camisas. Me disse que os estudantes de lá eram doidos com esses produtos e os compravam a qualquer preço. Em meu primeiro dia, tratei de ligar do hotel para o Alick, explicando-lhe quem eu era. Os russos não podiam entrar nos hotéis de turistas estrangeiros. Tive um primeiro contato com ele pessoalmente numa estação de metrô perto do hotel. Dei-lhe de presente uma blusa jeans e lhe disse que eu tinha outras para vender para quem se interessasse. Ele me arranjou uns 5 clientes. Mas como vender para eles se a polícia estava em toda parte vigiando tudo? Dá-se um jeito. Em muitas esquinas de Moscou havia cabines telefônicas de madeira, fechadas, divididas em 4 partes. Em cada parte havia um telefone. Na cruzeta central havia um grande buraco por onde passava um grosso catálogo telefônico que servia para as 4 partes da cabine. Tudo era pré-combinado pelo telefone: eu entrava primeiro, pegava o telefone e fingia estar ligando para alguém. Aí entrava um dos estudantes compradores, pegava também um telefone e fingia falar com alguém, enquanto eu lhe mostrava a blusa e escrevia o preço em rublos. Ele me passava o dinheiro pelo buraco da lista telefônica e eu lhe passava a blusa. Para não chamar a atenção da polícia, a gente se deslocava para outra cabine telefônica na outra esquina, e a cena se repetia. Tudo com muito medo, com um olho no “cliente” e outro na polícia que sempre estava a uns 100 metros de distância. Financiei toda a minha viagem com essas “vendas”.
Segundo exemplo: O Alick me convidou para passar a festa de Ano Novo no apartamento de dois estudantes amigos dele. Na hora marcada, ele foi até perto do hotel e pegou a mim e a um colega de quarto meu, um estudante inglês de nome Gibson. O apto tinha um quarto pequeno, uma cozinha idem, mas uma sala de tamanho médio com umas três mesas baixas e a gente se sentava em volta delas em almofadas no chão. Havia uns 20 estudantes presentes, homens e mulheres misturados. Cada um levou suas garrafas de vodka ou do que quisesse. Todos queriam conhecer os dois “ingleses” – eu e Gibson. A comida foi levada pelas estudantes. A bebida e o papo corriam soltos. De repente, começou a passar de mão em mão um cigarrinho de maconha. Os estudantes russos queriam mostrar pra nós “ocidentais” que eles também eram avançados e modernos e que a maconha fazia parte da vida deles. Eu nunca tinha fumado um cigarrinho de maconha. Mas tive de fingir naturalidade e dei duas tragadas. Pra quê? De repente, comecei a ver tudo rodando e fui levado para o banheiro onde vomitei tudo o que tinha e o que ainda iria ter no estômago. E aí veio o pior: já tinha passado da um hora da manhã quando bateram na porta com violência. Silêncio total. Nisso entraram três policiais militares, com aquele capote verde grosso da 1ª Grande Guerra (já viram isso em filmes de guerra?), armados até os dentes e começaram a nos rodear. Nós estávamos sentados nas almofadas no chão. Fizeram várias perguntas aos russos, especialmente sobre mim e sobre o Gibson. Andavam em volta sempre olhando para nós. Era visível o terror estampado em meu rosto. Foi quando eu comecei a pensar:
putsgrila, estou aqui sem nenhum documento (tinha esquecido meu “passe” no hotel) e não custa nada esses caras me levarem com eles e sumirem comigo. E o pior de tudo: ninguém no mundo sabia onde eu estava naquela hora, muito menos a minha família na Inglaterra. Bem, para concluir: ao fim e ao cabo, os policiais levaram 5 estudantes com eles. Fiquei sabendo depois que era porque eles não moravam em Moscou e não tinham “permissão” para irem a Moscou. Também fiquei sabendo depois que quem nos denunciara fora uma velha senhora vizinha que estava estranhando nossa reunião e as nossas conversas em inglês – uma língua que ela desconhecia totalmente. Com a saída dos policiais, não houve mais clima para festa. E imaginar que eu estava pensando em “pegar” uma russinha naquela noite… Melhor do que “pegar” a russinha foi o alívio que senti quando cheguei são e vivo no hotel.
Bem, como disse, ficamos dois meses por lá, sob um frio récorde. Chegamos a ir a Kiev de ônibus – capital da Ucrânia, mas só por dois dias. Quase não conheci nada em Kiev. O frio nos inibia de sair. Mas, o importante a registrar era o estado exageradamente policialesco que vi por lá. Polícia por toda parte. Mais um detalhe: havia grandes lojas só pra vender para turistas. O Alick – que me acompanhava pra todo lado – ficava do lado de fora no frio me esperando. A qualidade dos produtos era muito ruim e o atendimento dos balconistas muito frio e desinteressado. Por uma razão muito simples: ser um bom ou um médio ou um péssimo vendedor-assistente não fazia diferença no salário de ninguém. Todos ganhavam baixos salários, mas todos ganhavam o mesmo salário. Típico do sistema comunista!
Como podem ver, minha experiência com o comunismo russo não foi muito agradável. Voltei decepcionado com o sistema e abandonei de vez aquelas ideias igualitárias comunistas, baseadas no lema: “-De cada um de acordo com sua capacidade e a cada um de acordo com suas necessidades!”.
Tchau esquerda! Acho que valeria uma viagem de vocês à Coreia do Norte. Quem sabe ainda há tempo para uma conversão!
