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MAIS UM DIA OU MENOS UM DIA?

Poleiro do Chantecler – Assim é a vida!

MAIS UM DIA OU MENOS UM DIA?

Meus caros, raros e fieis leitores,

Certamente a maioria de vocês já ouviu falar em Clint Eastwood. Artista famoso de Hollywood, talvez o maior nome dos filmes de faroeste americano – maior mesmo que John Wayne. Além de famoso, era rico, bonito e charmoso. Mas hoje ele está um tanto velho. Em maio último ele completou 96 anos. Está muito envelhecido, rugas demais, cabelos brancos e ralos, um tanto decrépito. Difícil reconhecê-lo em seus vídeos. Dá pena. Ele está morando num rancho – aqui, talvez a gente chamasse de chácara ou de sítio – em São Francisco, na Califórnia.

E o que tem Clint Eastwood com nossa crônica de hoje? Tem um motivo muito simples: outro dia chegou-me pelo zap uma mensagem dele onde ele dizia que a velhice era uma mierda. Sim, uma mierda! Na mensagem, ele fala que, apesar de toda a sua fama e sua fortuna, ele estava cada vez mais isolado do mundo e das pessoas. Já não tinha ânimo para aceitar os convites de aniversários dos amigos e nem de convidá-los para tomar um vinho em sua casa. E por assim proceder, quase ninguém lhe telefonava mais. Nem ele se animava a ligar para alguém. A velhice isola as pessoas, dizia ele. O único receio que ele tinha é que acontecesse com ele o que aconteceu com o velho Gene Hackman – cuja mulher havia falecido e ele, velho e com alzheimar, nem se deu conta. Uma semana depois foi a vez dele. Já viviam tão isolados dos parentes e amigos que ninguém se deu conta do sumiço deles. Os corpos dos dois foram encontrados dois ou três dias depois. Este é o medo de Clint Eastwood.

E conto isso por que já começo a contar os dias que me faltam. Não que eu esteja isolado do mundo. Sou casado, vivo com minha esposa e ainda visito minhas filhas, netos e alguns amigos lá em Brasília, Ainda participo de alguns eventos, de algumas festas e encontros de amigos aqui em Bom Despacho. Mas, também é fato que isso ocorre cada vez menos. A gente nem sempre tem ânimo para festejar coisas da vida.

Visitar alguns amigos ingleses que fiz quando estudava lá na Inglaterra já está ficando mais difícil. Nos últimos 30 anos, nunca passei mais de dois sem visitá-los. Agora, já está completando 3 anos sem vê-los. Tenho planos de ir lá no final de setembro próximo. Mas fico na dúvida: tenho receio de não suportar 12 horas de voo, afora as horas no aeroporto. Um dos meus amigos ingleses morreu no final do ano passado. Tenho de voltar lá antes que os outros também se vão.

Até escrever – que é das coisas que mais me agradam – tenho diminuído bastante. Tenho preferido ficar lendo um bom livro na rede ou ver um bom filme na TV. A idade aumenta o desânimo e a preguiça e reduz a criatividade. Não é outra a razão por que não vemos canções novas do Chico Buarque, do Caetano, do Gilberto Gil e assemelhados. Não há Lei Rouanet que os anime a compor. A idade pesa mais.

Outro dia, recebi um telefonema lá de Brasília. Era de um Cursinho Preparatório de concursos públicos. Nos anos 90 fui professor lá de Economia por um bom tempo. Estavam me sondando se estaria disposto a retomar minhas aulas. Com uma diferença: não eram aulas presenciais. Eram aulas gravadas e enviadas à distância. Pagavam até que razoavelmente bem. Infelizmente, descartei de pronto. Nunca gostei dessa picaretagem de ensino à distância. Na minha atual fase da vida, gosto menos ainda. Mas, eu recusaria também se fossem aulas presenciais.

Às vezes, após o banho antes de dormir, me olho no espelho e me pergunto: “-Mais um dia ou menos um dia?” As duas respostas são verdadeiras. A cada dia que termina, vivi mais um dia, mas fica me faltando um dia de vida. Olho meu rosto e vejo poucas rugas. Não porque elas não estão lá. Eu é que não as vejo. Ou finjo não ver. A cabeça ainda me parece em ótimo estado. Acho que sempre tive esta mesma cabeça, desde que eu era criança e estudava o Primário lá no Coronel Praxedes. Tenho a sensação de que sempre fui muito maduro. Nunca fui um jovem afoito, daqueles que aproveitavam as noites para uma boa farra. Não era de correr atrás das mulheres. As que surgiram na minha vida – não muitas – surgiram meio que por acaso.

A única coisa que me dava segurança e confiança eram os estudos. Nisso sempre fui acima da média. Nunca fui um caro prático, daqueles que consertam tudo em casa. Meu irmão Raul era o contrário: não era bom de estudos mas era prático toda vida. Percebendo minhas inabilidades para quase tudo, meu pai vivia dizendo em casa: “-O Mozart não dá pra nada!” Quando comecei a passar nos concursos públicos – e, modéstia às favas, sempre nos primeiros lugares – eu chegava pra ele e dizia: “-Olhe, eu sirvo para alguma coisa, sim. Passei no concurso do BEMGE e não vou querer o emprego. Quero coisa melhor.” Com o tempo ele aprendeu a me dar valor.

Pois é, mas o tempo passa. Hoje estou ligeiramente mais velho do que ontem. Amanhã estarei mais velho do que hoje. Não vou brigar com a natureza por causa disso. O que me importa é que tive (e tenho) uma vida bastante agradável. Ninguém precisa mais que isso.

Hoje à noite vou me olhar de novo no espelho e vou pensar: “-Mais um dia, hein?” O que quer dizer: “Menos um dia, hein?” E nessa toada, daqui a uns dias, eu me vou. Sem remorsos, sem arrependimentos. Tranquilo. Pra onde? Nunca consegui responder esta pergunta! E vou partir sem saber a resposta!

Chantecler

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