Poleiro do Chantecler – Coisas da vida
O ano era 1962 e haveria eleições para prefeito e vereadores em outubro. A grande rivalidade política era entre a UDN (União Democrática Nacional) e o PSD (Partido Social Democrático). Havia também uma terceira força política – que era o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), – mas este era relativamente pequeno, de pouca representativa.
A UDN era um partido mais conservador, geralmente associado às famílias mais ricas. Seria hoje classificado como partido da direita. Em Bom Despacho, Seu líder máximo era o Afonso Nogueira e a ele estavam ligados os “Gontijos” – geralmente grandes fazendeiros. Já o PSD era, supostamente, um partido mais progressista. Hoje, o partido seria talvez classificado como de esquerda, mas uma esquerda bem moderada. Em Bom Despacho o PSD era liderado pelo Geraldo Robertinho, também fazendeiro, e a ele estavam ligados os “Lopes Cançado”, alguns deles também fazendeiros.
As eleições marcadas para outubro seriam acirradas pela grande rivalidade entre udenistas e pessedistas. Foi nesse contexto que o Adriano Bento – por sinal , meu pai – um homem simples, sem muita cultura, mas cheio de ideias para o governo melhorar a vida das pessoas. Muitas dessas ideias eram um tanto simplórias, mas ele as defendia com muita convicção. O ídolo maior dele era o Afonso Nogueira que acabou por estimulá-lo se candidatar a vereador. Tudo por puro idealismo e vaidade, já que naquela época o cargo de vereador não era remunerado.
Entusiasmado com hipótese de se eleger vereador e se tornar uma pessoa mais importante na cidade, Adriano Bento se dedicou de corpo e alma à sua campanha. Ele morava ali no meio do quarteirão da Rua do Céu – hoje, rua Flávio Cançado – passagem obrigatória para todos as pessoas que moravam na Cruz do Monte e na Tabatinga. Eram pessoas muito simples e humildes e a maioria sequer sabia ler e escrever. Adriano Bento conhecia todos eles pelo nome e sabia a história da maioria deles. E o que ele fez? Montou uma escolinha no fundo da nossa casa com duas cadeiras, uma mesinha e um pequeno quadro negro. O giz ele pegava nos restos dos quadros negros do Ginásio Miguel Gontijo onde ele trabalhava de manhã. No resto do dia, ele ficava na varanda da sua casa e todas as pessoas que por ali passavam ele as chamava, falava da importância de uma boa escolha de vereadores e perguntava se eles sabiam assinar o nome. A maioria não sabia. Ai ele, então, dizia: “-Pra poder votar, você não precisa saber ler nem escrever, mas precisa saber assinar seu nome e ter uma carteira de identidade, mais nada! Você quer aprender a assinar seu nome?” Os que respondiam “sim” ele levava para sua escolinha e ficava lá com eles horas e horas ensinando-os como assinar. Depois ele treinava a pessoa para escrever ADRIANO e dizia que esse era o nome que ele deveria escrever na cédula. E repetia isso trocentas vezes. Depois ele os instruía sobre como tirar a carteira de identidade. Ele mesmo tirava a foto da pessoa com uma máquina fotográfica velha que ele havia comprado só pra isso. Mandava revelar as fotos e as entregava para as pessoas com a recomendação de irem à delegacia fazer a carteirinha de identidade. Aproveitava a ocasião e fazia um teste pra ver se a pessoa havia aprendido, de fato, a assinar o nome e a escrever ADRIANO. Às vezes, ele ainda servia um cafezinho com um pedaço de queijo ou um pedaço de bolo. E sempre com a recomendação: “-Na hora de votar, não se esqueça que na cédula vai ter uma linha onde você vai escrever o nome do seu candidato a vereador. E o que você vai escrever lá? ADRIANO. Ok?”
Estas cenas se repetiam todas as tardes e o dia inteiro no sábado e no domingo. Era uma romaria lá em casa. Aliás, a casa passou a viver em função da campanha do meu pai.
Sua eleição era dada como garantida. Talvez fosse o vereador mais votado da história de Bom Despacho. Mas aí veio o pior: quando faltava menos de uma semana para a eleição, ele foi comunicado pelo juizado eleitoral que sua candidatura tinha sido cancelada a pedido de alguém do PSD – o partido contrário ao dele – a UDN. E por que motivo? Muito simples: Uns sete anos antes de eleição, ele tinha sido condenado a seis meses de restrições de movimentação (tinha que se recolher à residência todos os dias até as 19 horas). Foi condenado por crime de injúria por ter chamado um coletor – que era quem pagava os salários dos funcionários do Estado – de “ladrão” e “desonesto”, alegando que ele atrasava de propósito o pagamento dos pobres funcionários (o que se comprovou que não era verdade). Naquela época, todos os condenados pela justiça, após decorridos 5 anos do cumprimento da pena, deveriam requerer ao juiz a “Reabilitação”, sob pena de o ex-condenado continuar inabilitado para os “seus direitos civis”, como votar e ser votado.
Homem simples que era, meu pai nunca soube que tinha de requerer a tal de “reabilitação”. A falha, certamente, fora de seu advogado que, ou se esquecera do processo ou nem sabia dessa exigência.
Não é difícil imaginar a frustração de meu pai. Literalmente prostrado. Naquela época não se falava em depressão. Mas, foi o que ele teve. E profunda. Ficou desanimado, quase não conversava, só respondia em monossílabos. Ficava deitado na rede na nossa varanda sem ânimo para conversar com ninguém. Parecia que ele tinha perdido um pouco o gosto pela vida. Foi um período muito triste de nossas vidas.
Depois, as coisas foram melhorando pouco a pouco e a vida quase voltou ao normal lá em casa. Só não melhorou de todo porque não demorou muito e ele veio a falecer. Na verdade, ele nunca se livrou totalmente daquela decepção. Ele tinha apenas 66 anos e nunca tinha adoecido antes.
Coisas da vida!
Chantecler.
