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AS MOÇAS DA RUA DO CÉU

Poleiro do Chantecler – Amores platônicos

Meus caros, raros e fieis leitores,

Hoje vou falar das minhas namoradas da época de minha adolescência, em Bom Despacho. “Minhas namoradas” é um modo de dizer. A bem da verdade, o namoro era só da minha parte. No meu livro UM LUGAR CHAMADO RUA DO CÉU – infelizmente já esgotado – há duas ou três crônicas em que eu falo de minhas namoradas platônicas daquela época em que eu estava com 17-18 anos e era tímido para caramba e namorava as moças mais bonitas sem que elas nem soubessem. Pra ser sincero, elas nem tomavam conhecimento de minha existência.

Eu tinha sido um garoto razoavelmente bonito, mas já rapaz eu não era lá essas coisas. Usava óculos de grau e tinha muita espinha no rosto. Eu gozava de um conceito de ser um estudante muito inteligente, mas isso não me ajudava muito com as garotas. Uma garota de 15, 16 ou 17 anos não está obviamente à procura de um namorado inteligente. Ela quer é um rapaz de rosto bonitinho, que tenha um certo charme, social, espontâneo, essas coisas, e eu não era nada disso.

Mas, eu não era de todo pessimista. Sempre achava que um dia alguma menina ia gostar de mim. Era uma questão de tempo e paciência. E pelo contato mais rotineiro, eu achava que isso ia acontecer com uma das moças da minha Rua do Céu. Havia várias.

Começo pelas filhas da Elisa Gontijo – que morava em frente à minha casa. Ela tinha 4 filhas: a Tetê, a Lili, a Martinha e uma outra cujo nome, se me lembro bem, acho que era Heloísa. Depois ainda veio o Roberto. A gente, nessa época, tinha por volta de 12-13 anos. A Tetê era a mais velha e era das quatro a que mais gostava de mim. Sempre quis me namorar. Mas, o diacho é que eu gostava era da Lili, magra e elegante. Mas a Lili gostava era de um outro rapaz de nome Beto que, por sinal, gostava era da Marlene. Parecia aquela música: Tetê gostava do Mozart que gostava da Lili que gostava do Beto que gostava da Marlene. E ficou nisso até que elas se mudaram de lá e eu fui estudar em outras plagas.

Mas bonita mesmo era a Mirtes da Lulu – que era um ou dois anos mais velha do que eu. Aí eu já estava com meus 17-18 anos. Ela morava um pouco mais abaixo na minha rua e quantas e quantas vezes eu ficava na esquina oposta à casa dela – ali defronte o João da Casinha – na esperança de vê-la sair à rua nem que seja por um minuto. Ela tinha um namorado mas eu não ligava muito. Achava-o mais feio do que eu – o que alimentava minha esperança. Quem sabe, um dia… e esse um dia nunca veio. Ela até acabou se casando com ele. Mas o casamento não deu muito certo, não. Durou poucos anos. Foi ela quem me contou num encontro que tivemos por acaso um dia em que ela estava lavando o passeio em frente à sua casa. Infelizmente, a Mirtes já se foi. Parece que estava com Alzeimer. A natureza às vezes é cruel.

Havia também a Alzira que não morava propriamente na Rua do Céu. Morava num sobrado ali na rua José Gonçalves, em cima da antiga rodoviária. Ela ficava sempre na varanda olhando o movimento das pessoas na rua. Eu ficava sempre por ali, na esperança de um dia ela perceber minha presença e (quem sabe?) descer para conversar comigo. Nunca desceu. O máximo que ela se permitiu foi um dia dar um tchau pra mim com a mão espalmada. Não passou disso. Depois, eu saí de Bom Despacho e eu soube que ela se casara com o Zé Jaime com quem teve dois ou três filhos. Infelizmente, um tanto doente, a Alzira veio a falecer relativamente jovem. Mais uma crueldade da natureza.

Outra moça por quem eu tinha uma certa queda, melhor dizendo, muita queda, era a Dusanjos, filha do Zé Simão e irmã de meu então grande amigo Oswaldo. Ela era linda, com olhos azuis. Morava num sobrado quase defronte minha casa. Ela namorava o Faichande, mas eles tinham terminado. Achei que era a minha grande chance. Passei a frequentar a casa dela rotineiramente. Ficávamos no alpendre conversando por horas, mas ela falava muito no Faichande e aquilo arrefecia minha esperança. Mas, passados uns poucos meses, ela reatou com o Faixande e acabou com ele se casando. E a minha queda por ela também terminou.

Também tinha a Margarida e a Antônia, da família dos Eleotérios.

Elas não moravam na Rua do Céu, não. Moravam ali na virada da Rua do Céu para a Rua Capivari, numa casa quase em frente onde hoje mora a Vera do Azul. Muita gente achava a Margarida mais bonita do que a Antônia. Eu, não. Gostava era da Antônia. E até aconteceu um fato pitoresco comigo e a Antônia que eu já contei aqui. É que não foi uma nem duas vezes que eu ficava parado ali na esquina onde antigamente funcionava a Rádio Difusora, esperando a Antônia passar. Um dia eu acabaria criando coragem e a abordaria. Às vezes, ela demorava, mas a minha paciência ou a minha vontade de falar com ela não tinha limites. E esse dia surgiu. Ela vinha subindo a Rua do Céu e eu pensei com a minha timidez: “-É hoje ou nunca!” E atravessei a rua meio trôpego e inseguro e a abordei. “-Hei, tudo bem? Como é mesmo seu nome?” Eu sabia que ela me conhecia, pelo menos de vista, de tanto que me viu parado ali naquela esquina. E ela me respondeu: “-Me chamo Antônia!” “Nome bonito!” – eu disse. E ela: “-O seu é Mozart, né?” Oba, pensei, ela sabe meu nome. Mas aí ela completou: “-Você é irmão do Raul, não é?” Meio sem graça, eu respondi: “-Sou, sim!” E ela: “-Eu acho o Raul tão bonito!”

Foi uma ducha de água fria no meu entusiasmo juvenil. Foi como uma brochada instantânea. Me despedi e nunca mais procurei por ela.

Havia outras moças bonitas na Rua do Céu. Não vou falar da Santina – de todas a mais bonita – porque, sendo uns 5 anos mais velha do que eu, era de uma outra geração. Mas havia ainda a Mirtes, irmã do Joãozinho Leiva, a Ordália que morava numa casa ao lado da Mirtes (a entrada era comum para as duas casas) e que depois escreveu uma obra-prima chamada UMA CASA NA RUA DO CÉU. Havia ainda a Dalva, irmã da Duzanjos, a Marlene – a garota mais esperta nas brincadeiras de rua que eu já conheci.

Embora esteja tudo ainda vivo na minha cabeça, hoje tudo isso é passado. Tudo é saudade. Definitivamente, sou um saudosista incorrigível.

Chantecler.

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