Na semana passada, eu me peguei pensando nas mulheres que vieram antes de mim: minha mãe e minhas avós. E, enquanto pensava nelas, percebi que não estava apenas lembrando de histórias antigas. Eu estava olhando para as raízes de muitas mulheres que ainda existem hoje. Histórias que se repetem.Feridas que atravessam gerações. Silêncios que se tornam heranças.
Minha mãe ficou órfã muito cedo, por volta dos sete ou oito anos. Mas, quando falava de sua mãe, seus olhos se iluminavam. Ela a descrevia como uma mulher encantadora — bonita, de olhos azuis, cheia de sardas no rosto, cabelos longos e avermelhados, pele muito clara. Uma mulher alta, elegante, que gostava de cantar. Ela contava que, todos os finais de tarde, minha avó colocava uma cadeira de madeira em frente à pequena casa e, enquanto observava os filhos brincando, cantava por horas.
Era ali, naquele simples ritual, que ela demonstrava amor, presença e cuidado. Mas a vida dela também foi marcada por uma dor profunda. Uma dor que muitas mulheres conhecem bem. Ela foi abandonada, traída, trocada. E não foi trocada por qualquer pessoa. Foi trocada pela própria irmã.
Meu avô mantinha uma vida dupla — filhos com minha avó e, ao mesmo tempo, um relacionamento com a cunhada. Um homem bonito, admirado, disputado pelas mulheres da cidade. Mas que usou seu encanto para ferir duas mulheres ao mesmo tempo. Quando minha avó descobriu a traição, tomou uma decisão que, para a época, era quase impensável: ela saiu da fazenda, pegou seus filhos e foi morar em uma pequena casa na cidade. Sozinha, separada, responsável por cinco filhos e isso na década de 1930. Você consegue imaginar o peso dessa escolha naquela época? Os olhares da sociedade? Os julgamentos silenciosos? As dificuldades financeiras? Mesmo assim, ela não abaixou a cabeça. Nunca.
Ela se tornou uma mulher independente, forte, determinada — mas também profundamente ferida. Carregava a dor da traição e da rejeição dentro do coração. E sua história terminou cedo demais. Muito jovem, por volta dos trinta e poucos anos, ela morreu. Minha mãe sempre dizia que ela foi envenenada por outra mulher, movida pelo ciúme e pela insegurança. Uma mulher que temia perder o marido para minha avó — mesmo sem nunca ter recebido dela qualquer sinal de interesse. A inveja e o medo de uma mulher insegura mudaram o destino de uma família inteira. E marcaram gerações.
Depois veio a história da minha mãe. Uma mulher linda. De olhos raros — cinza-azulados. Uma beleza que chamava atenção. Mas, assim como sua mãe, ela também carregou o peso da dor. Ela foi traída, trocada e diferente da minha avó, ela decidiu permanecer.
Hoje, olhando para trás, eu entendo: não era fraqueza. Era medo. Medo de que seus filhos fossem abandonados como ela foi. Medo de repetir a dor que viveu na infância. Medo de ficar sozinha. Ela permaneceu e, pouco a pouco, as feridas foram se acumulando. Chegou um momento em que o peso do corpo se tornou um escudo. Uma forma silenciosa de se proteger. De se esconder. De sobreviver emocionalmente.
Foi então que percebi algo muito importante: A beleza física nunca foi o que determinou a felicidade dessas mulheres. Elas eram bonitas, fortes, capazes, mas estavam feridas por dentro. Feridas pela traição. Pela rejeição. Pela solidão dentro de um relacionamento.
E então surge a terceira mulher da minha história: minha avó paterna. Filha de escravos. Uma mulher forte, resistente, determinada. Ela também foi traída, abandonada, rejeitada. Seu marido tentou envenená-la. E, quando não conseguiu, fez algo ainda mais cruel. Levou toda a família para outra cidade. Colocou todos no trem. E, ao chegar a uma estação, desceu com minha avó e os filhos. Depois…simplesmente voltou para o trem. E partiu. Partiu com sua amante, que estava em outro vagão.
Minha avó ficou ali, sozinha com quatro filhos. em uma cidade desconhecida. Sem casa, sem apoio, sem segurança. E, mesmo assim, ela recomeçou.
Quando olho para a história dessas mulheres, eu não vejo mulheres fracas. Eu não vejo derrotadas. Eu não vejo vítimas. Eu vejo sobreviventes. Vejo mulheres que sustentaram famílias inteiras com lágrimas escondidas. Mulheres que criaram filhos enquanto curavam suas próprias feridas. Mulheres que continuaram caminhando, mesmo com o coração quebrado. Mas também vejo algo que me faz refletir profundamente: Elas sobreviveram, mas não viveram o amor que mereciam. Não tiveram o cuidado. Não tiveram a proteção. Não tiveram o respeito. Não tiveram a fidelidade.
E então eu me pergunto: Quantas Maria? Quantas Carlas? Quantas Conceições ainda vivem histórias parecidas hoje? Quantas mulheres ainda acreditam que precisam suportar a dor para manter a família? Quantas mulheres ainda confundem resistência com silêncio? Quantas mulheres ainda permanecem onde são feridas por medo de recomeçar?
Se você está lendo isso e reconhece algo da sua própria história nessas linhas, eu quero te dizer algo muito importante: Você não é a primeira mulher da sua família a enfrentar dor. Mas pode ser a primeira a interromper o ciclo. Pode ser a primeira a escolher o respeito. Pode ser a primeira a dizer não à humilhação. Pode ser a primeira a acreditar que merece amor saudável. Porque coragem não é ausência de medo.
Coragem é decidir não continuar vivendo aquilo que fere a sua alma. E talvez a sua maior missão não seja apenas sobreviver, mas ensinar às próximas gerações que uma mulher pode ser forte sem precisar aceitar a dor como destino. Quebrar um ciclo também é um ato de amor.
MSC. Vera Queirogas, Psicanalista e Mentora de Mulheres. Uma das fundadoras da Qibel, Clínica de Psicologia e Psicanálise em Bom Despacho. Instagram @quibel.bd Contato: 37 9 9148 – 2853.
