Poleiro do Chantecler – O ferrinho do dentista
Meus caros, raros e fieis leitores,
De tanto ver as lambanças do desgoverno Lula e as arbitrariedades e ilegalidades cometidas rotineiramente pela nossa Suprema Corte, venho pensando seriamente em parar de escrever estas minhas mal traçadas crônicas políticas semanais, me limitando às crônicas do cotidiano de minha Bom Despacho. Me desgasto psicologicamente menos e é onde eu tenho um maior número de leitores. É possível que esta seja minha última crônica política.
E o assunto é o STF e as peraltices cometidas por alguns de seus membros. Poderia começar pela negativa do Plenário do STF à continuidade das investigações da CPMI do roubo dos velhinhos do INSS. O prazo da CPMI venceu e, dada a omissão do presidente do Senado Federal – o Alcolumbre – a direção daquela Comissão de Inquérito requereu sua prorrogação por mais 60 dias. O Plenário do STF – capitaneado por seus quatro cavaleiros do apocalipse – Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes (doravante, Xandão), Dino e Tóffoli – rejeitou o pedido sob dois argumentos: primeiro, porque investigações duradouras são próprias de regimes autoritários-ditatoriais – se esquecendo do famigerado “inquérito das fake News” que vem desde 2019 e cuja única serventia é a de investigar, processar e prender aqueles que criticam ou atacam o STF ou qualquer de seus membros e inibir todo e qualquer gesto de hostilidade contra ministros do STF nos aviões, nos restaurantes, nas praças públicas – sendo os réus cidadãos comuns sem foro privilegiado. O segundo argumento diz que o STF não deve interferir em assuntos internos do Congresso Nacional – esquecendo-se também que, em 2021, o STF determinou que o Congresso Nacional abrisse a CPMI da Covid, pois já havia o número mínimo de assinaturas para a sua abertura. O verdadeiro motivo dessa interferência no CN foi que a CPMI era contrária a um governo que não era simpático ao STF.
Agora, vem pela frente o processo do Banco Master. Esperava-se que a delação premiada de Vorcaro fosse comprometer em demasia alguns ministros do STF (Xandão, principalmente, Tóffoli e Cássio Nunes). Mas, há dois aspectos a considerar: primeiro, o Xandão ressuscitou um pedido do PT datado de 2021 no qual ele pede para alterar a “lei da delação premiada”, onde uma das propostas é que não sejam válidas delações de um réu que esteja preso. Ou seja, ou a delação de Vorcaro não valerá nada ou ele terá de ser solto. Sabe-se que o ministro Gilmar Mendes já anda articulando para o livramento de Vorcaro – o que, parece claro, ele vai conseguir. O Segundo argumento para que tudo isso acabe numa grande pizza – como acabou a CPMI do INSS – é o fato de que, mesmo que o André Mendonça queira levar as investigações à frente, todo o processo, ao final, passará pelas mãos do Paulo Gonet, Procurador Geral da República, sempre em coluio com Gilmar Mendes e Xandão de quem é amicíssimo e que foram responsáveis pela sua nomeação como Procurador Geral. E depois de passar pela PGR, o processo será apreciado e votado pelo Plenário do STF. E quem vai votar? Os supostos réus – Xandão, Tóffoli e Cássio Nunes, – além de Gilmar Mendes, Dino, Cristiano Zanin, Carmen Lúcia (bem mandada). Com esses juízes, preciso perguntar qual a possibilidade de o maior escândalo financeiro do País terminar em pizza?
E olhe que há razões de sobra para investigar, por exemplo, o ministro Xandão. Citando algumas: aquisições de imóveis caríssimos, voos rotineiros em jatinhos particulares de banqueiro bandido, contratação de escritório de advocacia da família do ministro por 129 milhões de reais sem objetivos definidos, conversas particulares trocadas com banqueiro bandido antes e no dia em que ele foi preso. Razões não faltam.
Mas, o Supremo Tribunal procede como se tudo estivesse normal. Finge que não é com eles todas as críticas e acusações. Como disse o grande cronista político Fernando Schuller, o STF parece ter a plena convicção que esta onda de pressões sobre ele vai passar. É uma questão de tempo. É segurar firme, não dar muita satisfação a jornalista, que tudo vai passar.
E pra mostrar que tudo no STF se passa de forma normal, o País assistiu na semana passada a condenação de um pequeno empresário catarinense de 71 anos, de nome Alcides Hahn, a 14 anos de prisão. E qual foi seu crime? Contribuiu com 500 reais – enviado via PIX – para ajudar na passagem de alguns conterrâneos seus – que ele nem conhecia – para vir a Brasília passear e participar das manifestações contra o resultado das eleições de 2022. Ele não veio a Brasília, não conhece a capital federal e nem imaginava que o pessoal iria fazer um quebra-quebra na Praça dos 3 Poderes.
Citando mais uma vez o cientista político Fernando Schuller, “o País perdeu completamente o senso republicano, incapaz de perceber o absurdo em tudo isso! Hahn, assim como outros pequenos empresários também condenados pelo mesmo motivo, não cometeu crime nenhum,” absolutamente nenhum.
Mas, é claro, há muita gente que apoia o STF nesses absurdos. “-É da direita? Cadeia neles, Xandão!” As estatísticas mostram que cerca de 32% da população brasileira ainda apoia o STF nessas condenações. Desses, uns 20% são da esquerda, com certeza. Para esse pessoal da esquerda, o Xandão está certo enquanto o seu público for o pessoal da direita.
Eu só fico imaginando o dia em que um ministro do Supremo for julgado pelos 129 milhões de reais do “seu” contrato com o Banco Master. Se a pena for proporcional aos 14 anos decorrentes do PIX de 500 reais, o ministro vai ter de passar várias gerações na cadeia.
Mas, estou decidido a dar um tempo com essas crônicas políticas minhas. Eu só as tenho escrito porque nesses momentos eu sempre me lembro das palavras do pastor alemão Martin Neimöller quando Hitler estava implantando o nazismo na Alemanha:
“Primeiro eles vieram buscar os socialistas, e eu fiquei calado — porque eu não era socialista. Então, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado — porque não era sindicalista. Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado — porque não era judeu. Foi então que eles vieram me buscar, e já não havia mais ninguém para me defender.”
