Poleiro do Chantecler – O ferrinho do dentista
Meus caros, raros e fiéis leitores,
A carga tributária mede quanto da renda ou do produto interno bruto (PIB) de um país é arrecadado pelo governo sob a forma de impostos diversos. As estatísticas tributárias no Brasil ainda são muito imprecisas. As últimas estatísticas mostram que a carga tributária anda pela casa dos 34% do PIB. Não é a maior do mundo. A Suécia, Noruega, Dinamarca têm taxas que ultrapassam os 40%. A diferença é que, nesses países, os impostos arrecadados retornam inteiramente para os cidadãos sob a forma de excelentes estradas, segurança quase que total, moradias e educação de graça, plena assistência à saúde e coisas tais. Mas, se não é a maior do mundo, a carga tributária do Brasil é a maior entre todos os países ditos “em desenvolvimento”. E com um agravante: aqui, há duas classes que não pagam imposto: a classe pobre – por razões óbvias – e a classe rica – porque sempre encontram um meio de burlar a lei. Não confundir o imposto pago pelas empresas com o pago pelos seus sócios como pessoas físicas. Tenho vários amigos “ricos” que pagam bem menos imposto de renda do que eu – um assalariado.
Um ponto importante a observar: além de muito alta, nossa carga tributária não para de crescer. No governo Lula, então, nem se fala. E o novo imposto sobre o consumo – o IVA – vai aumentar mais ainda a nossa carga tributária. O ex-ministro da Fazenda – Fernando Haddad – recebeu até o codinome de “Taxad” por só saber inventar novos impostos ou aumentá-los.
A propósito, alguém do seu gabinete disse ter ouvido o seguinte diálogo entre o ministro Haddad – quando ele ainda estava na Fazenda – e seu Secretário da Receita Federal, em meados do ano passado:
Haddad: “-O governo está precisando de mais dinheiro, Secretário. Como faremos?”
Secretário da Receita: Infelizmente, senhor ministro, não vejo como aumentar mais ainda os impostos. Já não acho possível continuar enganando o contribuinte. A verdade é que não é mais possível continuar aumentando os gastos quando sabemos que o governo está endividado até o pescoço!”
Haddad: “-Um cidadão comum, claro, quando se endivida em demasia e não tem condições de pagar, vai parar na prisão. Mas, o Estado é diferente. Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a se endividar mais e mais. Teremos de criar mais impostos!”
Secretário da Receita: “-Ah, sim? Mas como faremos se já criamos todos os impostos imagináveis?”
Haddad: “-Teremos de ser criativos e inventaremos outros!
Secretário da Receita:: “-Mas não temos mais condições de lançar mais impostos sobre os pobres.”
Haddad: “-Concordo, é impossível.”
Secretário da Receita:: “-Só se for sobre os ricos.”
Haddad: “-Não, não podemos criar mais impostos sobre os ricos. Eles reduziriam suas compras, entende? Um rico, quando gasta, faz a sobrevivência de inúmeros pobres.”
Secretário da Receita:”-Então, como faremos?”
Haddad: “-Senhor Secretário, me desculpe mas você pensa como um tolo, raciocina como uma ameba. Há uma quantidade sem fim de pessoas entre os ricos e os pobres. São aquelas pessoas que trabalham duro, pensando em enriquecer e com medo de empobrecer. É sobre essas pessoas que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Vão reclamar com os amigos, com os parentes, mas não passa disso. Quanto mais lhes tirarmos, mais elas trabalharão para compensar o que lhes tiramos. Elas são um reservatório inesgotável para as nossas necessidades de dinheiro.
Secretário da Receita:: Mas que pessoas são estas?
Haddad: É A CLASSE MÉDIA, otário!!!”
* * *
A bem da verdade, este diálogo, acreditem, foi escrito há mais de 300 anos. Ele apareceu numa peça teatral, em Paris, de nome O Diabo Vermelho, de Antoine Raul. Na peça, dois altos funcionários do Ministério da Fazenda da Corte de Luiz XIV – Colbert e Mazarino – travam este diálogo que está bem atual até hoje. Trocamos os nomes para Haddad e o Secretário da Receita Federal e não fez diferença alguma.
Chantecler
P.S.: Andei calculando por alto a carga tributária que eu pago pessoalmente ao governo e cheguei aos seguintes números: 27,5% de imposto de renda e 11% de contribuição previdenciária – ambos na fonte. Só aí já dá 38,5%. Os impostos indiretos sobre os bens e serviços que eu consumo no dia a dia (IPI, ICMS, ISS, e outros) chegam, na média, a 22%. Ou seja, minha carga tributária pessoal chega a 60% de minha renda. Isso sem computar o IPTU e o IPVA e multas aqui e ali. Em outras palavras, o governo me toma 60 reais de cada 100 reais que ganho. E o que eu recebo em troca? Felizmente, não uso hospital nem escola públicos. Segurança quase nenhuma. A rigor, do governo, uso mal e porcamente, as estradas pelas quais, na verdade, eu pago pedágio. Difícil viver num país assim!
