Poleiro do Chantecler – Pessoas inesquecíveis

Estou aqui de volta para falar de pessoas que me marcaram quando de minha infância e juventude em Bom Despacho. Como fui professor de Economia por muitos anos, é natural que minhas lembranças estejam mais voltadas para as pessoas da área de educação. A figura do professor sempre esteve muito presente em minha vida. Me lembro de todas as professoras que tive no meu curso primário no então Grupo Escolar Coronel Praxedes. Já falei aqui da Professora Solange Quirino – a minha primeira professora daquele Grupo e que me ensinou o beabá. Falei “en passant”, certa vez, da D. Sassã, a professora do meu segundo ano de grupo, uma professora meio gordinha e tão tranquila quanto seria possível. Ela era a mãe do Robinson – aquele que trouxe o SESC pra Bom Despacho. Também mencionei aqui a D. Eulina de meu 3º e 4º anos primários no Praxedes. Era uma mulher magra, cintura fina, esbelta, sempre muito bem vestida e muito elegante. D. Eulina mudou minha vida ao me dizer, certa vez, que eu era o aluno mais inteligente do Praxedes. Passei a estudar com mais afinco pra comprovar essa opinião dela. Mas essa história eu já contei em outra crônica.
Mas, eu queria falar mesmo é de uma outra professora que, talvez, foi quem mais marcou minha vida de estudante: a professora Maria do Doca. Poucas, muito poucas pessoas na Bom Despacho de hoje devem se lembrar dela. Só mesmo os mais antigos.
Conheci a professora Maria do Doca quando fui fazer o admissão – um curso de um ano após a conclusão do curso primário e que era obrigatório para quem quisesse fazer o Ginásio Miguel Gontijo. O curso dela era famoso em Bom Despacho. Fiquei encantado com ela. Como era agradável e simpática. Amor à primeira vista. Voz calma, incisiva, transmitia muita confiança no que ensinava. Sabia o que dizia. Eu estudava e lia tudo o que ela ensinava e recomendava. Às vezes, à tarde, eu passava na casa dela – ali na Rua Vigário Nicolau ao lado da casa do Pedro Gontijo e da D. Maura e, também, dos Correios – para tirar dúvidas e conversar com ela.
Eu estava com 12 anos e já sabia o que queria pra mim. Tinha consciência de que, para me tornar alguém, eu teria de estudar muito para “romper o círculo vicioso da pobreza” – uma frase que eu tinha lido num artigo no jornal Estado de Minas. Às vésperas do exame de Admissão para entrar para o Ginásio, D.Maria do Doca percebeu minha insegurança e veio me dar uma força:”-Não se preocupe! Aqui tem muitos alunos bons, mas você é o melhor. Você vai passar. Fique tranquilo!” E realmente fui aprovado… em primeiro lugar! E concorrendo, como já disse uma vez, com alunos do naipe do Ivan da Tinuca e da Zulma e Zulmira do Odílio. Fui na casa dela para agradecer-lhe. Ela me abraçou longa e carinhosamente. A única frase que ela me disse foi: “-Eu num falei?” As lágrimas lhe corriam pela face.
Cinco anos depois, quando já terminado o Ginásio, fiz concurso para uma das duas vagas para trabalhar no Banco do Estado de Minas Gerais – o famoso BEMGE – em Bom Despacho. Eu tinha só 17 anos. Éramos 11 candidatos. Provas só de português e matemática. Tirei novamente o 1º lugar. A outra vaga foi preenchida pelo Juju, pai do Fernando que era dono da Papelaria Central. Fui novamente à casa da D.Maria do Doca para lhe dar a notícia. Ela me abraçou novamente e disse, de novo com lágrimas nos olhos: “-Eu já sabia!” E completou: “-Enquanto houver concurso público, você vai longe”. Profeta a D.Maria do Doca. Fiz mais sete exitosos concursos públicos ao longo de minha carreira profissional. Foi assim que rompi com o círculo vicioso da pobreza.
Larguei o BEMGE pouco tempo depois e fui trabalhar e estudar em BH. Quase não tive contato com a D.Maria do Doca. No meu casamento, fiz questão de ir a Bom Despacho para convidá-la para ela ser minha madrinha. Ela ficou sensibilizada, mas declinou do convite. Disse-me que não tinha condições de ser minha madrinha. Não me disse o por quê. Já estava aposentada e meio adoentada. Mas, mesmo sendo em BH, iria fazer o possível pra me prestigiar. Não prometia. Ao se despedir de mim, novamente as lágrimas escorriam pelos olhos: nos dela e nos meus.
Meu casamento religioso foi ali na Igreja de Lourdes. Igreja cheia. Na hora dos cumprimentos na porta da Igreja, quem me aparece? D. Maria do Doca, com um pouco de maquiagem, num vestido novo e muito simples. Me deu um abraço e me disse que deixara o presente com minha irmã Nanci. Pediu mil desculpas por não ficar para a festa porque seu marido – o Doca – estava muito doente e ela teria de pegar o ônibus de volta para Bom Despacho. Viera só mesmo pra me dar um abraço de felicidade. Pra variar, choramos novamente naquele abraço.
Nunca mais a vi. O presente dela era um objeto pequeno de alumínio (ou aço) em formato de um coreto, com seis estiletes em pé, próprios para pegar azeitona ou queijo como tira-gosto. Não sei por que, mas lá em casa nunca entrava azeitona porque ninguém gostava. Mas o presente da D. Maria do Doca ficou pelo resto de minha vida na cristaleira lá de casa. Enferrujou e empreteceu com o tempo. Quando me separei, foi uma das poucas coisas que levei comigo. Deve estar até hoje na cristaleira da casa de minha mãe, em Bom Despacho. Não tenho certeza. As pequenas coisas da casa dela foram “saqueadas” como lembranças pelos filhos e netos. Acho que ele foi no meio.
D. Maria do Doca, minha adorável professora do Admissão me deu base e confiança pra crescer na vida! Se viva fosse, teria feito 111 anos em fevereiro passado. Quase da idade de Bom Despacho. Dá um filme de Bertolucci.
