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CONVERSA TELEPÁTICA COM MEUS PAIS

Meus caros, raros e fiéis leitores,

Confesso que não sou muito ligado às coisas do espírito ou da espiritualidade, como se costuma dizer. Por ser adepto da filosofia cartesiana, procuro dar racionalismo a tudo que penso e raciocínio e a duvidar das “verdades” que não se provam. Uns acham que não passo de um agnóstico. Acho que sou mais que um agnóstico. Alguém dizer que é ateu muitas vezes ofende pessoas à sua volta que têm o espírito muito voltado para a religião e para as coisas de Deus. Essa é uma questão muito delicada para ser trazida a público. Algumas pessoas até evitam conversar com um ateu. dele. Ser ateu é como ser portador de uma doença contagiosa. Imagine que eu seja candidato a prefeito de Bom Despacho e que eu esteja concorrendo com um outro candidato que todos sabem ser corrupto mas que declara sua crença em Deus. Eu, de minha parte, prefiro ser sincero e dizer: sou honesto mas sou ateu. Nesta situação, mesmo me julgando um candidato melhor, tenho tudo para perder a eleição. Assim é a vida.

Mas, não me entendam mal. Mesmo sendo ateu ou agnóstico ou algo que o valha, não faço mal a ninguém, ajudo a quem precisa e a quem eu possa ajudar, não tenho inveja de ninguém, respeito as pessoas, não tenho preconceitos racistas nem sexuais, não roubo nem furto, nem sequer falo mal de alguém. Levo a vida numa boa e bem tranquilo. Enfim, um bom cristão.

Mas, voltando ao ponto: Embora, como disse no início, eu não tenha nenhuma ligação com as coisas do espírito, gosto muito de ir lá no cemitério velho conversar de vez em quando com meus pais: o Adriano – que faleceu em 1984 – e a Nayr Foschetti – que faleceu no dia de Finados de 2003. Faço isso pelo menos uma vez por mês. Parece meio contraditório minha não ligação com a espiritualidade e essas minhas visitas. O ser humano muitas vezes é contraditório.

Hoje, seria aniversário do meu irmão Danilo que, infelizmente, faleceu já faz quatro anos. Mas foi enterrado no túmulo da família Foschetti lá no Bonfim, em BH. Aproveitando a data do falecimento dele, fui lá no cemitério velho visitar meus velhos. Tá difícil chegar ao túmulo deles. Praticamente ninguém respeita os limites da cova e constroem mausoléus que passam de seus limites – o que impede a passagem por terra até o túmulo de meus pais. Pedindo desculpas aos mortos, vou pisando nessa e naquela lage até chegar a eles. Em lá chegando, deixo algumas flores do mato que costumo colher lá perto de casa, no Pica-Pau II, e ainda dou uma arrumada nos arranjos lá existentes. E começo a conversa com eles.

Quem conversa mais é meu pai. Sempre foi. Quando eles eram vivos também era assim. Minha mãe, com aquela carinha boa de sempre, fica sorrindo feliz de me ver. Raramente me pergunta alguma coisa. Eles nunca têm novidade pra me contar. Acho que do lado de lá, a vida é sempre a mesma coisa. Espíritos se encontrando e conversando, apesar de não terem nada para contar. A não ser quando alguém chega da terra como se fosse uma visita. Já até imagino meu pai contando para o Omar da Padaria, ou para o Rafael Martins, ou para o Berlim do Espírito Santo (e minha mãe para a Helena, pra Santina e pra D. Bem):

“-Ah, o Mozart esteve aqui ontem. Andou nos contando as novidades da família e as modernidades tecnológicas do mundo de hoje. Eu nem sei do que ele está falando. Não entendo nada do que ele diz. Usa um palavreado que nunca ouvi. Ele falou, por exemplo, que ele conversa com uns amigos ingleses dele pelo telefone e consegue ver a cara deles no telefone. Diz também que envia para eles algumas mensagens por telefone e que eles respondem de imediato. Eu não acredito m nada disso. O Mozart é meio simplório, sempre acreditou em qualquer coisa. Há alguns anos atrás, quando eu ainda estava lá na terra, ele tentou me convencer de que os americanos tinham descido na lua. Vê se pode! Eu disse pra ele que isso era truque dos americanos e pra ele pra deixar de ser bobo. Se eles tivessem mesmo alcançado a lua, um dia desses eles vão chegar até o céu e ver Deus. Impossível, vocês não acham?” – E todos devem ter concordado com ele.

Mas, voltando à minha visita de ontem, contei para ele que nós todos estamos muito bem por aqui. A Neusa, minha irmã de Nova Serrana que nos deixou há dois anos, estava lá com eles. Contei pra eles que o meu neto, Pedro filho da Giselle vais se casar em junho próximo. Ele e a noiva são médicos. Eles não chegaram a conhecer o Pedro, coitados. Minha mãe disse que vive encontrando com o Raul, a Wanda, o Danilo e o Giovanni e que eles só andam juntos. Que bom. Como meu pai era cruzeirense doente, contei-lhe que o Cruzeiro melhorou um pouco, comprou bons jogadores mas que o novo técnico Tite não está dando conta de formar um time competitivo. Meu pai disse que nunca gostou de técnico velho. Eu também não. Mas, mesmo assim eu disse pra ele que estava esperançoso de o time fazer um bom campeonato brasileiro.

Foi, como sempre, um papo muito agradável. Sempre que converso com eles ficou mais tranquilo e um tanto aliviado. Nunca lhes perguntei onde eles estão, se passaram pelo purgatório, se já chegaram no céu – essas coisas que nos ensinam. Só sei que, onde quer que eles estejam, eles estão bem. E isso é o que importa.

Chantecler.

Mozart Foschete

Poleiro do Chantecler – O ferrinho do dentista.

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