Poleiro do Chantecler – Assim é a vida
Meus caros, raros e fieis amigos,
Costumo chamar a minha geração – os nascidos nos anos 40, 50 e até 60 – como a “geração de ouro”. Foi uma época de muitas mudanças no mundo e particularmente no Brasil. Mudanças nas artes, na música, na vida social e econômica das pessoas. Na economia, as mudanças foram gritantes. Foi uma época em que o País crescia a taxas acima dos 10% ao ano transformando um país provinciano e atrasado numa economia mais moderna, exportadora não só de produtos primário-agrícolas, mas também industrializados. A urbanização da população foi um fenômeno fantástico. A criação de empregos no setor industrial e no setor de serviços com salários relativamente elevados foi um fenômeno extraordinário. Continuaram existindo ainda grandes bolsões de pobreza aqui e ali, mas a tendência seria seu desaparecimento. Só não desapareceram de todo porque a existência da pobreza em larga escala passou a ser de interesse e de conveniência de grupos politicamente ideológicos.
Essas mudanças foram o resultado das grandes reformas introduzidas pelo governo federal no sistema bancário, na receita federal, nos correios e de grandes obras na infraestrutura (estradas, aeroportos, hidroelétricas e portos). As telecomunicações se expandiram a tal pondo que, já ao final dos anos 70, todos os lares tinham sua linha telefônica, coisa rara nos 60. Para ser o carro-chefe da economia, o governo também se modernizou, contratou, através de processos seletivos, servidores a peso de ouro, competindo por eles com o setor privado. Estava criada a famosa geração de “tecnocratas” – a maioria constituída por economistas. Eu fui um deles, indo trabalhar no IPEA-Brasília – então o órgão técnico mais qualificado e conceituado do governo federal. Os salários desses “tecnocratas”, de repente, se elevaram a tal ponto que se distanciaram exponencialmente da modesta remuneração recebida pelas pessoas da geração anterior – a dos meus pais.
Essa foi, a geração de ouro de nosso Brasil. Infelizmente, esse fenômeno de crescimento e desenvolvimento não se manteve a partir dos anos 80. As taxas de crescimento do PIB têm se situado há muitos anos em 1%, 2% ao ano. Vez por outra essa taxa é negativa. Em outros termos, o PIB vem crescendo praticamente igual ao crescimento da população – o que significa que o padrão de vida dos brasileiros tem permanecido praticamente estagnado.
Sem dúvida, minha época foi a época das vacas gordas. Por isso, costumo chamá-la de “geração de ouro.” Uma geração que não se repete. Mas infelizmente esta geração está partindo aos poucos. Aqui mesmo em Bom Despacho é visível esta debandada. Quantos se foram só nesses dois últimos meses? Cito alguns:
Mozart do Xuá – fumante inveterado, tranquilo e participante ativo daquela turma de “véios” da Praça da Matriz que se auto-denominam de a “Turma do Saco Mucho”; o Dr. Guilherme – gentil e educado, também frequentador da mesma turma do “Saco Mucho”; O Paulininho Queirós – brilhante e atuante advogado, também frequentador, ainda que esporádico, daquela turma dos “véios” da Praça da Matriz; o Dr. Fernando Humberto – agitador e líder estudantil dos anos 60 e conceituado juiz na vida profissional, cumprindo aquela trajetória: incendiário quando jovem e bombeiro aos 40. Também foi embora na semana passada o Faixande, homem discreto, de família das mais tradicionais de Bom Despacho, ex-marido da Dusanjos – minha vizinha de quando criança e por quem tive um ligeira paixão de adolescente sem que ela nunca soubesse disso.
Há pouco tempo foram embora o Ronaldo Leite, o Célio Luquini, o Pipoca e o Ismar.
É, aos poucos estamos indo. E os “véios” da Turma do Saco Mucho estamos todos cabreiros. Quem será o próximo? Só não lamentamos mais porque sabemos que tudo é obra da natureza e a natureza não gosta nem deve ser contrariada.
Uma coisa é certa: todos esses que já se foram fazem mais falta aqui do que no lugar para onde foram. O céu, certamente… se ele de fato existe.
