Muitas das vezes o paciente bariátrico cria uma expectativa em relação à cirurgia bariátrica e metabólica acreditando que seus problemas acabarão. A falta de vigília leva os antigos hábitos a procurarem a casa que deixaram e os hábitos batem à porta.
Na última coluna, falamos sobre o papel e a importância da avaliação psicológica no contexto da cirurgia bariátrica. Hoje, vamos tentar compreender um pouco sobre a experiência do reganho de peso em pacientes bariátricos. Trago hoje os dados de uma pesquisa realizada pelo Hospital Público de São Paulo num artigo de 2017 intitulado – Weight regain after a bariatric surgery: a focus on social phenomenology – Reganho de peso após a cirurgia bariátrica: um enfoque da fenomenologia social Este estudo foi realizado com base em dados coletados entre março e maio de 2017 por meio de depoimento de 17 participantes que realizaram cirurgia bariátrica e, puderam compreende que o reganho de peso está associado a 4 fatores: sentimento de fracasso frente ao reganho de peso – pessoas com sentimento de “falha”, como se estivem perdido sua última esperança; aspectos emocionais e estressores que contribuem para o reganho de peso; impacto do reganho de peso na saúde emocional e física e a incerteza e medo de não conseguir parar de engordar, criando uma incerteza sobre o futuro, vou reganhar de peso?
De acordo com estimativas da Organização Mundial de Saúde, OMS, mais de 1,9 bilhão de adultos apresentam excesso de peso e, destes, pelo menos 650 milhões são obesos. No Brasil, o número de pessoas obesas também cresceu: em 2006, 42,6% foram considerados com excesso de peso, em 2016 esse índice subiu para 53,8%. Esses dados são de 2016/2017. Isto é, não tem muito tempo. Segundo o relatório mais recente da OMS, publicado em março de 2024 (com base em um estudo global abrangente liderado pelo NCD Risk Factor Collaboration), o panorama mundial é o seguinte: mais de 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com obesidade (dados referentes a 2022). Esse número é significativamente superior aos 650 milhões estimados em 2016. Aproximadamente 2,5 bilhões de adultos (com 18 anos ou mais) apresentam excesso de peso. Isso significa que cerca de 43% dos adultos em todo o mundo estão acima do peso ideal, enquanto a prevalência de obesidade mais que dobrou desde 1990.
Estima-se que, se as tendências atuais continuarem, mais de 4 bilhões de pessoas (51% da população global) viverão com excesso de peso ou obesidade até 2035. Gerando um custo econômico que poderá chegar a US$ 4,32 trilhões anuais até 2035.
Como podem perceber, os dados são alarmantes; é um problema de saúde pública que custa aos cofres públicos e, até o momento, o único método; o mais efetivo e duradouro que sem tem para vencer essa doença e as doenças associadas à ela – como hipertensão, diabetes e cânceres – é a cirurgia bariátrica e metabólica.
Para ilustrar o que estou dizendo – certa vez recebi uma paciente, ali nos idos de 2021, com aproximadamente 28 ou 31 anos de idade. Ela fora encaminhada pelo endocrinologista, com indicação para emagrecimento, acompanhamento psicológico e cirurgia bariátrica. Durante a sessão (que foi tensa) deixou claro que queria permanecer obesa. Que fora uma escolha dela; que ela queria assim. Estava consciente de sua escolha pois, palavras dela: “a vida é muito curta, não vou me privar do que mais gosto na vida, que é comer”.
Obviamente não deu continuidade à psicoterapia. Certamente não voltou ao endócrino. Torço para que ela tenha mudado de ideia ou encontrado alguém que fora capaz de promover mudanças em seu estilo de vida.
Contudo, é dessa subjetividade que se trata o estudo – as experiências subjetivas; essas experiências que devem ser exploradas ao longo de todo o processo para que, havendo necessidade a serem satisfeitas que podem leva-lo ao reganho de peso. Dito de outra forma – o que pode contribuir para que o paciente reganhe peso? Essas “coisas” estão no núcleo familiar, em suas cognições; em suas experiências emocionais, relacionais; matrimoniais em suas expectativas? Como a pessoa que se submeteu a cirurgia bariátrica percebe o reganho de peso? É a pergunta que o estudo acima citado nos faz pensar.
Segundo a pesquisa, os sentimentos mais associados ao fracasso frente ao reganho de peso é culpabilidade, vergonha, desespero e tristeza. É possível inferi crenças de desvalor – que se refere à ideias absolutas, rígidas e generalizadas que remente a condições de incapacidade, incompetência e ausência de valores, em geral essas crenças estão vinculadas às ideias de desvalorização das próprias habilidade e capacidades como pessoas.
O outro aspecto apontado no artigo é: as expectativas frente ao reganho de peso, que também sugerem crenças de desvalor. Segundo os depoimentos dos entrevistados estes desejam perder peso com vista para a qualidade de vida, mas que precisam de suporte profissional incondicional, especialmente quanto às questões emocionais.
Podemos entender que crenças a respeito dos hábitos e valores alimentares, bem como expectativas irrealistas podem interferir no reganho de peso. Tais situações estão diretamente ligadas à história do paciente; história essa que deveria ser bem explorada durante as primeiras avaliações, identificadas e, trabalhadas posteriormente durante todo o processo.
Inúmeros pacientes referem um padrão equivocado na alimentação (muitas das vezes, talvez a maioria, têm dificuldades de compreenderem isso). Acreditam que estão fazendo o melhor, as melhores escolhas. Racionalmente compreendem a necessidade de mudança, contudo, emocionalmente, têm dificuldades de reconhecer esses maus hábitos.
Padrões beliscadores, alta ingesta calórica, alimentos adocicados, uso de álcool contribuem diretamente no reganho de peso e são as principais causas deste fenômeno encontradas no consultório.
Outro ponto que contribuem para o reganho de peso são as relações interpessoais e limitações físicas. Não é incomum encontrar pacientes com limitações físicas em decorrência de quadro de dor – haja vista que foram anos num corpo obeso agredindo as articulações. Essas articulações já fragilizadas, levam tempo para recuperarem, quando recuperam, limitando o paciente de praticar exercícios físicos. As relações familiares ou interpessoais tendem a se manter a mesma, fator predisponente ao reganho de peso. Como eu disse na última coluna – todos tem que entrar na ciranda – caso contrário o paciente pode se ver numa situação de difícil escolha: se eu mantiver a dieta, não participo; se eu escapar da dieta, tenho a chance de pertencer ao grupo. O que acontece é que, somos bons naquilo que repetimos. Neste cenário entra um dos fatores mais difíceis de se trabalhar com o paciente – a alimentação emocional. Esses fatores psicossociais são um dos fatores mais importantes no trabalho com o paciente bariátrico e que exige do profissional resiliência, expertise e um trabalho de “formiguinha”. Surgem outros pontos como as demandas de cirurgia plástica que levam ao estresse – não só o paciente, como também familiares que, mediante esse estresse se opõem à cirurgia.
Todos esses pontos sinalizam a obesidade como um fenômeno psicossocial de delicada complexidade – que não envolve somente uma “escolha” de emagrecer, mas também assumir uma responsabilidade que colidirá com outras culturas, outras escolhas (que muitas vezes não são nossas; não nos pertence) que estão para além dos aspectos metabólicos e endocrinológicos.
Sempre digo que, informação é o melhor remédio. Quando o paciente e o profissional se dedicam a aprender juntos o que é melhor, o tratamento deixa de ser uma “ordem” e vira uma parceria. Esse conhecimento é que gera o verdadeiro resultado – para ambos.
Ainda que o grupo de estudo acima citado seja limitado, apenas 17 pessoas entre homens e mulheres que durante um período de 12 meses reganharam pelo menos 10% do peso após a bariátrica, ressalto a importância de se compreender os motivos pelos quais se reganha peso, entender esses motivos pode leva-lo a superá-lo com mais assertividade.
Assim é possível reescrever sua história junto com quem você ama, construir novas estratégias e retomar o controle de sua vida. Afinal, quem cuida da saúde, tem vários problemas, mas quem não cuida da saúde tem um único problema, e adivinha qual é? Vamos cuidar do nosso bem mais precioso?
REFERÊNCIA: Kortchmar E, Merighi MA, Conz CA, Jesus MC, Oliveira DM. Reganho de peso após a cirurgia bariátrica: um enfoque da fenomenologia social. Acta Paul Enferm. 2018;31(4):417-22.
World Health Organization (WHO). Controlling the global obesity epidemic. [Internet]. Geneve:WHO; 2017. [cited 2018 Aug 25]. Avaliable from: http://www.who.int/nutrition/topics/obesity/en/.
