Infelizmente há ainda muito preconceito em relação à obesidade. Tenho recebido pacientes (de várias faixas etárias) com sintomas ansiosos e humor deprimido muito em decorrência das relações sociais disfuncionais que se estabelece frente aos ambientes obesiogênicos.
Para contribuir com esse agravamento, temos visto nas mídias sociais práticas médicas e psicólogos influenciando seus ouvintes e seguidores expondo-os a conteúdos diversos sem base e evidências científicas. Segundo a 4º edição das Diretrizes Brasileiras de Obesidade, essa prática é particularmente verdadeira na obesidade. Tabus, preconceitos e visões distorcidas viram uma miscelânia de informações sem coerência as quais os pacientes, familiares, não sabem abordar prejudicando o tratamentos e a própria avaliação pré-operatória da obesidade.
O que ouço na prática clínica é: “posso pedir alguém para pegar o laudo tal dia?”. Sendo que o paciente nem foi à primeira consulta psicológica – dito no bom português, paciente e psicólogo não se conhecem. O paciente está interessado única e exclusivamente no documento que o “libera” para a cirurgia. Como se fosse um passe, um ticket que o permite entrar no centro cirúrgico. Escuto também: “quantas sessões são necessárias, Gabriel. Uma já é o suficiente”? Quando digo ao paciente que são necessários mais, a depender de cada caso (e isso pode variar muito a depender da expertise do psicólogo) os pacientes tendem a procurar outro profissional que dê o que eles querem. E acreditem – eles encontram.
Segundo as Diretrizes Brasileiras de Assistência Psicológica em Cirurgia Bariátrica e Metabólica publicada pela SBCBM (Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica) criada pela COESA (Comissão das Especialidades Associadas) entende-se que a atuação do psicólogo junto ao Cirurgião Bariátrico e metabólico está presente desde os primórdios da cirurgia Bariátrica e Metabólica, quando o Dr. Garrido iniciara os primeiros passos da cirurgia bariátrica no hospital das clínicas, em São Paulo.
Inicialmente, atuação da Psicologia fora tímida, no entanto com grande potencial, já se preconizava a atuação multidisciplinar objetivando oferecer a esse paciente (que tem demandas e especificidades complexas) o acompanhamento pré e pós-operatório (em alguns casos até intra-operatório) que minimizem os riscos operatórios (sim, toda cirurgia tem seus riscos); os riscos psicológicos e emocionais e, bem como os riscos socioambientais e familiares destes pacientes.
Contudo, qual o papel do psicólogo nesta avaliação, neste contexto carregado de estigmas e preconceitos? Digo a vocês que são inúmeras e não cessa na última sessão (chamada também de sessão de devolução). Podemos destacar o papel psicoeducacional do trabalho psicológica. Em minha prática clínica, arrisco a dizer que essa técnica psicoeducacional é realizada em 90% das sessões. Salvo quando as sessões envolvem questões técnicas, como aplicação de testes psicológicos.
A psicoeducação é uma técnica que relaciona os instrumentos psicológicos e pedagógicos com o objetivo de ensinar ao paciente e aos cuidadores os aspectos relevantes e indispensáveis sobre o tratamento, bem como sobre as patologias físicas e/ou psíquicas associadas à obesidade, favorecendo a prevenção de problemas e a conscientização do autocuidado em saúde.
O papel descritivo, psicoeducacional (não confundir com papel motivacional) é, sem dúvida um dos pilares da avaliação e ela permanece após a cirurgia. Por exemplo – tenho uma paciente, 47 anos, que realizara a cirurgia bariátrica há alguns anos, na época a técnica usada fora a banda gástrica ajustável.
E em várias sessões identificamos situações às quais foram necessários encaminhá-la ao médico (quer seja ao endoscopista ou mesmo ao psiquiatra) para reajustar intervenções médicas. Em uma das ocasiões, ela estava enfrentando episódios de humor deprimido misto, isto é, além do quadro deprimido típico da depressão, havia também inquietação física e mental, irritabilidade, pensamento acelerados, fala acelerada, insônia e aumento da impulsividade. Este aumento da impulsividade levava a paciente a episódios de comer emocional levando-a, por conseguinte, a sentimentos de culpabilidade, estresse, tristeza isolamento social (houveram momentos em que ela deixou de frequentar suas atividades sociais). Identificamos a necessidade de ajustar o medicamento, foi encaminhada ao psiquiátrica e após os reajustes necessários, a paciente teve uma melhora significativa. Percebam que o papel psicoeducacional fora de extrema importância neste cenário – haja vista que a paciente, junto com o psicólogo, identificarem o que estava acontecendo não só no seu dia a dia, como no seu núcleo família, fraternal bem como sua adesão à medicação.
Para chegarmos a essa conclusão – investigação do histórico familiar (inclusive de obesidade e cirurgia bariátrica realizada por outros membros da família); histórico de abuso físico, emocional e sexual e outras formas de traumas; experiência de vida estressantes (atual ou passada) e tudo isso conectando ao histórico de ganho de peso.
Histórico psiquiátrico devem ser bem explorados pois o sucesso e o prejuízo do tratamento dependerão, e muito, do tratamento do uso de álcool e outras drogas, tabagismo e transtorno psiquiátrico não controlados, como o transtorno bipolar ou transtorno ciclotímico e déficits cognitivos.
Estes casos mais complexos (os quais enfrento muito em minha clínica) merecem atenção redobrada no que diz respeito aos possíveis impactos da cirurgia e principalmente a verificação da necessidade real de se realizar a cirurgia e possíveis encaminhamentos a outros serviços e especialidades. (Para ilustrar o que estou dizendo e detalhar a complexidade que mencionei acima, recentemente encaminhai a paciente para a odontologia e para a fonoaudiologia. Em muitos casos o encaminhamento à fisioterapia bariátrica é de grande valia para preparar e reabilitar o paciente).
Os fatores psicossociais ganham espaço primordial na avaliação psicológica. Particularmente, gosto de explorar o ambiente social e familiar, procuro hábitos familiares e socias que sugiram um ambiente obesiogênico. Exploro e recorro em 100% das vezes a parentes próximos para participarem de pelo menos uma sessão, convido genitores, cônjuges e até filhos – desde que tenham mais de 18 anos – para participarem, separadamente, de alguma sessão.
Nesta fase é necessário levantar as expectativas tanto do paciente quanto dos familiares em relação à cirurgia. Na maioria das vezes, os familiares apresentam sentimentos ambivalente em relação à cirurgia – em outras palavras, uns concordam outros não e outra ainda não são indiferentes a todo o processo, o que não deixa de ser preocupante, pois nestes casos residente um “perigo extra” silencioso, haja vista que tenderam a não se esforçarem para as mudanças drásticas que a cirurgia bariátrica traz à família e ao paciente. Essa investigação do suporte sociofamiliar do paciente é de extrema importância pois o paciente ficar meses (pelo menos 3 meses) em franca recuperação. É certo que ele ficará funcional; conseguirá funcionar no seu dia a dia, não perderá capacidade de suas atividade de vida diárias, mas a nova dieta imposta por pelo menos 3 meses será significativa para reorganizar toda a dinâmica alimentar da família e, caso ela não esteja preparada para tal, poderá colocar o sucesso da cirurgia em risco. O que eu digo aos meus pacientes é que: “todos terão que entrar na ciranda, caso contrário, não dará certo. Em até 2 anos você terá reganho de peso”. Só como profético, mas é um fenômeno complexo e multifatorial que merece algumas linhas em outra oportunidade.
Tais informações e orientações à família e ao paciente tem o objetivo de promover a participação ativa e coerente com seus valores durante todo o processo que será duradouro e que a família e seu núcleo de amigos deverão ser coerentes com essa nova vida. Gosto de brincar com meus pacientes dizendo a eles que, “família nós não escolhemos, somos obrigados a tolerá-la do jeito que é, chatos ou não, amando-a ou não; muitas vezes não temos escolhas; mas se seus amigos ‘fervem’ em álcool, festas e comportamentos obesiogênicos, esses sim temos dever de rever em prol do sucesso da sua cirurgia; em prol de sua nova vida; em prol de seus novos valores”.
O ponto aqui é ajustar as expectativas tanto do paciente quanto da família. Essas expectativas devem ser realistas e não fantasiosas. Refletir sobre tais transformações (sociais, ambientais, familiares e alimentares) que ocorrerão após a cirurgia bariátrica a curto, médio e longo prazo reflete a máxima do trabalho psicoedicativo e psicológico durante a avaliação psicológica para cirurgia bariátrica.
Outros pontos que também ganham destaque especial é a avalição comportamental da alimentação; olhar com carinho para a relação emocional que o paciente tem com a comida; estimular a adesão ao tratamento que não envolve somente a cirurgia (envolve suplementação, nutrição específica, atividade física, que muitas das vezes o paciente nunca fez e, como eu disse até fisioterapia e outros profissionais que quase não se fala, como o odontologia e a fonoaudiologia) e que podem onerar o orçamento familiar. Levantar estes pontos na clínica é que faz a diferença na vida do paciente, facilita o trabalho multidisciplinar e melhoram a qualidade de vida do paciente, dos familiares no pós-cirúrgico.
Espero que tenha ficado claro que, o papel do psicólogo na avaliação psicológica da cirurgia bariátrica e metabólica não é oferece um ticket ou um passe para entrar no centro cirúrgico. Assim como também não é impedir a cirurgia (como eu escuto muito) a cirurgia só não acontecerá em casos muito específicos. Nos demais casos, ela vai acontecer, pois o risco de não realizá-la é mais alto – diabetes, cânceres entre outras doenças metabólicas – em muitos casos a avaliação psicológica é realizada “contra o tempo” – isto é, o paciente já deveria ter feito há anos e agora está correndo contra o tempo pois cada minuto conta para sua sobrevida; para uma vida com mais dignidade.
Percebam que para cada intervenção desta merece um texto a parte, pois o “munda da cirurgia bariátrica” é fantástico, instigante e desafiador. Espero ter outras oportunidades para conversar com vocês sobre esse tema. Poderemos falar sobre o diário alimentar, sobre os aspectos familiares e sociais e mesmo os desfechos do pós-cirúrgico do ponto de vista psiquiátrico e psicológico. Contudo, caso você precise ou esteja cogitando realizar a cirurgia bariátrica e metabólica, não hesite em procurar um profissional que os oriente adequadamente. A avaliação psicológica no contexto bariátrico é séria, implica em várias nuances que deve ser feita por um psicólogo especialista na área.
Gabriel Geovanne Rodrigues de Castro Ferreira
Especialista em Psicologia Jurídica, especialista em Psicologia Clínica – Capacitação em Cirurgia Bariátrica e Manejo Psicológico pela. Pós-graduando em Psicologia Avaliação e Intervenção psicológica no pré e pós-operatório da Cirurgia Bariátrica. Curso Avançando de Saúde Mental pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica
E-mail: [email protected]
Referência:
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA PARA O ESTUDO DA OBESIDADE E DA SÍNDROME METABÓLICA (ABESO). Diretrizes brasileiras de obesidade 2016. 4. ed. São Paulo: ABESO, 2016. Disponível em: https://abeso.org.br/wp-content/uploads/2019/12/Diretrizes-Brasileiras-de-Obesidade-2016-ABESO.pdf. Acesso em: 25 abr. 2026.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA BARIÁTRICA E METABÓLICA (SBCBM). Diretrizes brasileiras de assistência psicológica em cirurgia bariátrica e metabólica. São Paulo: SBCBM, [ano de publicação]*. Disponível em: https://www.sbcbm.org.br. Acesso em: 25 abr. 2026.
