Poleiro do Chantecler – A vida como ela é
Eu sou da geração dos meninos dos anos 50, criados soltos nas ruas de Bom Despacho. E nessa geração eu incluo o Paulininho Queirós. Eu e o Paulininho fomos do tempo em que se estudava em escola pública – que, no nosso caso, era o Grupo Escolar Coronel Praxedes a cujas aulas eu, por ser mais pobre, ia descalço, carregando uma pasta preta pesada onde tinha de tudo. Ele, de família mais rica, ia de sapato. Pela mesma razão, a caixinha de lápis de cor dele tinha até 36 cores. A minha, no 1º e no 2º anos, tinha só 6 cores. Só foi ter 12 cores no 3º ano. Mas essas coisas não faziam diferença nenhuma em nosso desempenho escolar.
Acho que nossa geração foi uma das últimas, se não a última, que cultivou o respeito aos nossos pais, aos nossos professores, aos mais velhos. Meu pai não era uma homem letrado. Mal concluiu o curso primário. Mas, para mim, era um celeiro de sabedoria. Muitos anos depois de sua morte, nós, os irmãos, ainda comentamos em nossos encontros sobre as frases mais comuns que ouvíamos de meu pai e de minha mãe.
Na casa do Paulininho devia a ser a mesma coisa. Lá o Sô Geraldo Rubertim (é assim que a gente o conhecia) era respeitado e obedecido. E depois de sua morte, muito relembrado o que ele dizia. Disso não tenho a menor dúvida disso. Embora fossem considerados “ricos”, na rua todos éramos iguais. A gente jogava bola ali na grama da Praça da Matriz – era os de cima, da Rua do Céu (nós) contra os de baixo, da Praça (eles). Às vezes dava até briga. Mas a raiva passava logo e tudo voltava ao normal.
Quando meninos, nós não tínhamos essas esquisitices de telefones celulares, “redes sociais”, “instagram”, “zap”. Nossas pesquisas eram nos livros velhos da biblioteca ou nas enciclopédias Barsa e Delta. Nossas redes sociais eram o boca a boca, na rua. E ficávamos na rua até o entardecer, conversando goma, fazendo hora com a cara um do outro, sem nenhuma maldade, meninos e meninas misturados, sem distinção de cor, de gênero ou de renda. Veadagem pode ser que existia, mas eu nunca vi, nem ouvi comentários. Não naquela época. Mas, eu era muito inocente pra perceber essas coisas. Ah, existia, sim, o Toniquinho. Mas ninguém dava a mínima pra isso.
Crescemos, viramos gente grande e escolhemos caminhos profissionais diferentes. Eu me tornei economista, dei muita aula em diversas universidades e fiz vários concursos públicos para Brasília. O Paulininho se formou em Direito e se tornou um dos maiores e mais conhecidos advogados criminalistas de nossa cidade e região. Dava gosto assistir os famosos júris de crimes em que ele era o defensor do réu. Sua eloquência contagiava a todos, inclusive os jurados.
Sempre ouvi dizerem que o Paulininho nasceu para ser presidente de alguma coisa. Se ele não conseguisse ser, ele inventava ou criava alguma associação para ser seu presidente. Contam até que certa vez ele estava sem nenhum mandato e ele criou a Associação dos Datilógrafos de BD só para ser seu presidente. Mas isso deve ser folclore.
Uma vez ele quis ser prefeito, mas não foi eleito, infelizmente. Se tivesse sido eleito, Bom Despacho teria vivido quatro anos pelo menos de festas e de muita animação. Ele ia agitar Bom Despacho em todo o seu mandato. Nisso, também, ele era muito bom!
Pois é, esse cara tão querido de todos acabou de nos deixar assim sem mais nem menos. Foi tudo meio que de repente. A bem da verdade, eu e o Paulininho nunca fomos grandes amigos, daqueles que frequentam a casa um do outro. Éramos mais colegas na rua do que amigos propriamente dito. Mas eu sempre gostava de seu jeitão, assim um tanto descontraído, informal, sempre sorrindo, fino no trato com as pessoas. Hoje mesmo eu li um texto que a Roberta (do Tadeu) escreveu sobre ele. Que texto bonito, tocante. O título era: “Paulininho decidiu inventar a felicidade dentro do possível”. Verdade. Se eu fosse resumir em três ou quatro palavras quem foi o Paulininho, eu diria exatamente isso: “O homem que inventava a felicidade!”
A verdade pura é essa: a minha geração de garotos dos anos 50 foi uma geração de ouro que nunca mais se repetirá. Não naqueles termos. E essa geração está indo embora aos poucos. Agora foi a vez dessa cara bacana chamado Paulininho! E ele vai fazer muito mais falta aqui do que lá no Céu! Uma pena, mesmo!
